Artigo publicado no JB em 25 de abril de 2010.

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A força e a superação para chegar ao sucesso

Hamurabi Messeder
PROFESSOR DO CENTRO DE ESTUDOS, PESQUISA E ATUALIZAÇÃO EM DIREITO (CEPAD), COMPANHIA DOS MÓDULOS, ÊNFASE, ACP, CURSO CLAUDIO BORBA;  ESCRITOR; CONSULTOR EDUCACIONAL; PEDAGOGO.

Quando adolescente, resolvi entrar para a Marinha.

Disseram-me que lá eu desenvolveria as qualidades que um homem precisa para ter sucesso na vida. Entrei procurando a disciplina e encontrei o autoritarismo, prometeram ensinarme o senso de respeito à hierarquia, mas tudo que vi eram arbitrariedades. Indignado, falava pelos cotovelos e, por isso, meu comandante, com toda razão, me disse um famoso adágio que eu conheci ali pela primeira vez: “O homem tem dois olhos, dois ouvidos e uma boca apenas. Somos feitos para ver e ouvir mais do que falar”.

Percebi, com o tempo, que o meu maior defeito dentro das forças armadas estava justamente em falar demais. Pouco depois, fui convidado a me retirar e tive que recomeçar a vida. Desenvolvi, naquele momento, a maturidade para aceitar as coisas que não era capaz ainda de mudar e transformei meus vícios em virtudes, meus defeitos em minhas qualidades, minhas limitações e fraquezas em minhas maiores habilidades.

Fui para faculdade determinado a converter aquilo que era meu maior espinho em uma flor. Em vez de me calar, já que falar me trazia problemas, estudei para entender assuntos que outras pessoas gostariam de conversar comigo e passei a dedicar a minha vida ao magistério em Direito. Em uma manhã de 3 de setembro de 2004, ocorreu o meu atropelamento. Com ele, vieram as sequelas e as deficiências físicas e neurológicas.

No início, os médicos não acreditavam que eu daria aulas tão cedo. Ledo engano; ficar em casa e desistir não era uma opção.

A visão ficou comprometida e as pernas também. Atividades relativamente simples como dar minhas aulas e escrever os meus livros ficaram muito mais difíceis, mas, acredite: vencer estas limitações com a ajuda de minha amada companheira e esposa e de minha filha foi fácil. Difícil foi lidar com o preconceito, pois muitos achavam que eu não conseguiria mais trabalhar.

Também foi difícil lidar com o tamanho descaso com que as pessoas portadoras de deficiência são tratadas, mas nada melhor do que o tempo, a maturidade e o conhecimento. Aprendi a abrir mão do ressentimento que sentia de todos que me tratavam mal, ou simplesmente não me enxergavam por ser deficiente físico.

Afinal, até me tornar um, eu também não os via. Muitos pedem a Papai do Céu que lhes dê força e, quando acordamos, não entendemos o porquê de todas as dificuldades. Se pedimos tranquilidade, sempre surge o tumulto; se queremos coragem, surgem várias situações que nos fazem ter medo; se pedimos dinheiro, surgem emoções em nosso íntimo e acabamos gastando o pouco que temos.

Então, se pedimos vitórias, histórias de sucesso e superação em nossas vidas surgem às lutas diárias para que possamos superá-las.

Por que nem todas as pessoas não conseguem vivenciar histórias de vitoria e sucesso? Por que não conseguem se superar? A resposta é bem mais simples do que se imagina.

Não é porque lhes falta fé, força, posses, exemplos ou exercícios! Não é falta de coragem de tentar coisas novas. O grande problema que cerceia as pessoas de viverem suas próprias histórias de sucesso e superação está no fato de que muitas delas fazem, na maior parte do tempo, coisas que não atendem aos próprios propósitos, desviando, assim, sua atenção e foco daquilo que realmente querem da vida.

Ou talvez não! Quem disse que sua vida que vivemos não é repleta e histórias de sucesso e superação? Você só não conseguiu enxergar isso ainda.

O fim de uma história de superação não é a melhor parte, mas sim como a construímos.

Domingo, 25 de Abril de 2010

Link: http://jbonline.terra.com.br/leiajb/2010/04/25/economia/a_forca_e_a_superacao_para_chegar_ao_sucesso.asp

Atropelando adversidades

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O leitor de “A vida em parágrafos”, que perpassa essas linhas fielmente toda semana, já deve ter ponderado – instigado pelas histórias que aqui encontra – sobre a importância dos exemplos na nossa formação como ser humano. Educadores, psicólogos e juristas apresentam, quase que diariamente, suas versões e razões para justificar a importância destes para a formação do ser humano e para o bem estar da organização social. Toda a técnica e pujança acadêmica que possa ser apresentada nessas explanações se diminui perante a força da história de Hamurabi Messeder; professor, pedagogo, autor de livros e funcionário público concursado, para ficar apenas no perfil profissional do carioca de 34 anos e ascendência libanesa. Hamurabi é um entusiasta das metáforas. Gosta de rememorar episódios que, em um primeiro olhar, parecem desprovidos de maior significado.  Sobre seu primeiro revés comercial, por exemplo. Quando criança, exímio jogador de bolinhas de gude, derrotava seus coleguinhas nas partidas, ganhava-lhes as bolinhas e tornava a vendê-las para eles depois. Até que esses coleguinhas pararam de brincar com ele. A lição foi aprendida.

Dono de uma história de vida rica e contundente, preserva, com humildade, valores que não se vê por aí todo dia. “Se a família de alguma maneira nos limita é porque estamos lidando de forma errada com ela, lembrando sempre que o amor e o carinho vêm em primeiro lugar”. A afirmação pode parecer um clichê do politicamente correto, mas quando descobre-se um pouco mais da história de vida que conduziu o professor até ela, essa impressão cai por terra. Esfacelada.

Hamurabi enfrentou, aos 7 anos de idade, um câncer no fígado. “Acho que esta história é mais de superação de meus pais do que minha”, avalia. Ele credita à fé de seus pais o avanço meteórico de sua condição clínica.  “Eu estava desenganado pelos médicos, quando meus pais fizeram uma promessa a uma santa que foi uma ex-escrava na época do império, pouco conhecida no Brasil e não reconhecida pela igreja católica”, relembra. “No dia seguinte à promessa, meu corpo começara a desinchar e dois ou três dias depois eu já respirava sem aparelhos e não precisava mais de remédio para as dores. Passados dez dias eu estava de volta em casa e ninguém sabia como, a não ser meus pais”.

A vida teve seu curso sem maiores sobressaltos até que outro episódio traumático ganhasse protagonismo na vida de Hamurabi. Quando ele foi atropelado na manhã de 3 de setembro de 2004, ele já tinha experimentado a carreira militar, terminado a faculdade de direito, tornado-se professor e se casado. O acidente deixou sequelas graves em Hamurabi, como a perda parcial da visão e severos problemas com sua memória recente, mas não o demoveu de sua força de espírito. As fraturas diversas ficaram para trás, a dificuldade de locomoção ainda persiste, mas o professor escaldado afirma: “Nada disso é impeditivo para que um homem continue sua vida”.

Questionado sobre sua relação com a fé, afinal de contas essa é uma pergunta imperiosa quando se confronta com um relato como esse, ele pondera que a espiritualidade é imprescindível para o ser humano. “A minha relação de fé antes do acidente era muito institucionalizada; após o trauma, meu contato com a centelha divina transcendeu as paredes de qualquer casa, abrigo ou mesmo instituição”. Ele continua: “a espiritualidade é uma qualidade inata do ser humano. Ela permite conectar-se com o criador – tenha ele o nome que tiver – com o próximo e conosco”.

Hamurabi é, também, auditor fiscal. “Entrei no serviço público pela oportunidade de crescimento pessoal, ético e moral”, afirma o professor, sem deixar de reconhecer o peso que a estabilidade financeira exerceu na escolha. Mas o que Hamurabi quer mesmo é ser diplomata. Atualmente, estuda para o concurso do Instituto Rio Branco. “Em breve, o leitor deste jornal poderá me encontrar na embaixada de um país árabe por aí”, brinca com senso de humor.

Naturalmente, o professor e aspirante a diplomata não mudaria nada em sua trajetória de vida se lhe fosse dada a chance. Valoriza cada pormenor de sua formação. Inclusive, o pragmatismo que a graduação em direito e seu ofício como auditor lhe proveem. Para ele, essa característica, tanto quanto a fé dilatada pelas tortuosas provações que passou, enriquecem-no como professor, pedagogo e comunicador. Isso porque Hamurabi, como bom comunicador que é, também dá seu “pitaco” sobre a importância dos exemplos na formação do ser humano. Embora não se reconheça como um, ele atesta: “quando nossa autoestima está elevada, somos capazes de tudo e tudo mesmo na vida. Acredito nos exemplos. O ser humano precisa se espelhar em exemplos positivos e modelos de sucesso para vencer, mas acredito mais no exercício e este se dá pelo contato constante com aquilo que queremos, mas ainda não temos”.

Reinaldo Matheus Glioche